69 dias

“É neste dédalo de ruas, de larguras e comprimentos iguais, um verdadeiro exército de mineiros meio nus agitam-se, conversam, trabalham sempre à luz das suas lanternas de segurança!…”

Júlio Verne, em Os quinhentos milhões da Begun

 

Os 33 mineiros presos a 700 metros de profundidade desde 5 de agosto em uma jazida no norte do Chile são os seres humanos que mais tempo permaneceram debaixo da terra depois de sobreviver a um deslizamento. Verifique como eles passaram as horas debaixo de terra.

 

“Para as criaturas contidas…

“…, justas, equilibradas, é da própria essência da direcção dos seus espíritos que a harmonia, a concórdia, a compatibilidade existam entre elas; o que é justo, o que é verdadeiro, são para as massas um objectivo único; só há uma maneira para lá chegar, só há um caminho a tomar, só há uma estrada a percorrer; que seja áspera ou lisa, semeada de flores ou juncada de espinhos, fácil ou cheia de pedras, é preciso franqueá-la, medir, atravessar, sem atalhos, sem meios escusos, não há desvios nem viés; têm de andar a direito, a estrada é única; todas as pessoas de bem seguem por ela.

O injusto, pelo contrário, caracteriza-se pelas suas incontáveis ramificações, pelas suas incompreensíveis variantes. Como num teorema que arrasta atrás de si infinitos corolários, inúmeras consequências, oferece diferentes azinhagas para as peregrinações humanas, azinhagas bem diferentes, que, de núcleo onde partem, se abrem num ângulo muito aberto para chegarem a um mesmo ponto de intersecção: o mal. Alguns são trilhados, franqueados, e por eles passou muita gente;outros, mais desviados, mais cobertos, mais dissimulados, mais hipócritas, tambem por eles passou muita gente, mas de uma forma quase despercebida. Cada homem tem a sua maneira para chegar ao mal, como também tem a sua maneira de o cometer; quando tomou a direcção, quando escolheu a estrada, fixa nela a sua ideia, fixou um marco, serve-se dele como ponto de referência para medir a sua viagem; toma a sua ideia, vira-a, revira-a, dá-lhe forma, amassa-a, molda-a e modela-a em cada assunto, procura, busca, explora, pesa, pondera, volta a ponderar sucessivamente; por vezes tateia durante muito tempo, mas está fixo na sua estrada, só tem que partir, e nela rola.

Não há portanto acordo, harmonia, paz, tranquilidade, quietude, amizade, ódio possíveis; é um caos, uma embrulhada, uma confusão, uma incoerência desenfreada.

Júlio Verne em «Um padre em 1839»