“A Filha do Capitão”, de José Rodrigues dos Santos

Nome: A Filha do Capitão
Autor: José Rodrigues dos Santos
Editora: Gradiva
Páginas: 629
 ”Mais do que uma simples história de amor, esta é uma comovente narrativa sobre a amizade, mas também sobre a vida e sobre a morte, sobre Deus e a condição humana, a arte e a ciência, o acaso e o destino.” Luísa Branco

Leitura partilhada – Bastardos do Sol / Urbano Tavares Rodrigues

Embora revelado em 1952 com A Porta dos Limites, Urbano Tavares Rodrigues chegou à maturidade com este romance fulcral no conjunto da sua obra: situado no Baixo Alentejo, contando-nos a história de Irisalva e do seu trágico amor por Delfino Frreire – mais tarde castrado por Arménio, irmão de Irisalva, num ato de extrema violência, para lavar a honra da família – , Bastardos do Sol ultrapassa o contexto social e político alentejano, que serve de pano de fundo, ao interrogar todo um quadro de relações familiares assente no patriarcado tradicional, e ao descer até às motivações obscuras de cada ser humano, aos seus dilemas existênciais, aí se destacando a força que emana de Irisalva, pouco a pouco liberta de coacções e cada vez mais senhora do seu destino.  Afanstando-se do neo-realismo (com o qual mantém afinidades ideológicas), este livro vale também pela sua escrita atenta à interioridade das personagens.

por Fernando Pinto do Amaral

Leitura Partilhada – Sem Sangue / Alessandro Baricco

Do seu esconderijo escuro, Nina ouve a discussão entre o pai e os homens que vieram para o matar. Depois a violência toma posse da situação e apenas a morte parece reinar. Mas quando um dos assassinos abre o alçapão e encontra Nina, acaba por decidir esconder a sua presença e fingir não ter visto ninguém. Este acontecimento marcará a vida de ambos e o que farão depois… até que, passado muito tempo, se voltam a encontrar.

É difícil explicar totalmente os sentimentos que este livro provoca. Constituído por duas partes muito diferentes em tom e intensidade, mas ambas marcadas por uma escrita cativante e plena de sentimento, o caminho de Nina marca intensamente, ainda que a totalidade da sua história se leia em poucas horas.

A primeira parte é violenta, cruel, por vezes arrepiante no impacto com que a morte entra na vida da criança, escondida na escuridão enquanto a fúria e os gritos (e, depois, o silêncio, chegam até si). Na segunda, Nina cresceu. Tornou-se uma mulher em busca dos homens que lhe destruíram a vida. E, na conversa quase calma que ela mantém com o homem que lhe matou o pai, é revelado, com grande poder ainda que de forma sucinta, o efeito que aquela morte distante exerceu sobre a sua vida e a pessoa em que Nina se transformou.

Mas nem só de morte e de ciclos de vingança vive esta história. Se Nina é a força de persistir perante uma vida marcada, Tito, por sua vez, é a oscilação entre extremos de cobardia (que o mantiveram em acção depois de terminada a suposta guerra), actos de uma coragem quase incompreensível e, por fim, uma resignação quase impossível de conceber. E são estes dois, estas duas forças em conflito com a memória do passado, que marcam a intensidade emotiva desta história que, apesar da sua brevidade, deixa na mente do leitor uma impressão duradoura.

Intenso, emotivo e, por vezes, perturbador, um livro que permanece bem depois do virar da última página, e que reflecte, mais que na elaboração das palavras, na força dos sentimentos, o verdadeiro efeito de um acto na vida que continua. Muito bom.

Leitura Partilhada: Eurico, o Presbítero / Alexandre Herculano

Eurico, o Presbítero” trata-se de um romance histórico, escrito por Alexandre Herculano, de que foram publicados alguns excertos nas revistas O Panorama e Revista Universal Lisbonense, e editado em volume em 1844. Tendo como cenário a época de desagregação moral e política do fim da monarquia visigótica na Península Ibérica, o autor aborda o problema ético-religioso do celibato, através da personagem central de Eurico, antigo gardingo tornado presbítero de Carteia por causa do amor impossível que nutria por Hermengarda, irmã de Pelágio, autor de hinos inspirados por Deus e pela Pátria.

Quando a sua pátria e a sua religião se encontram ameaçadas, Eurico retoma as vestes de guerreiro e transforma-se no Cavaleiro Negro, combatendo heroicamente os árabes. No fim, tendo reencontrado Hermengarda, mas consciente de que o seu amor é profano, procura a morte na batalha contra os invasores, enquanto a sua amada endoidece. Na figura extraordinária do personagem principal, na representação do pessimismo social, na glorificação patriótica, a obra espelha bem o temperamento romântico do seu autor.

Vamos dar início à leitura do romance: Os quinhentos milhões da Begun, de Júlio Verne. Este romance foi publicado em 1879. Júlio Verne nesta obra demonstra a sua preocupação sobre a ciência nas mãos certas ou erradas, retratando duas personagem de grandes conhecimentos científicos com fundos ilimitados, mas com duas visões bastante diferentes para a sua aplicação.

Leitura Partilhada – O sonhador

Terminada a leitura do romance Fúria Divina, vamos dar início a mais uma partilha. O romance que vamos l(v)er é do autor Ian McEwan, o sonhador.

Como seria estar dentro do corpo de um gato, apanhar um ladrão em flagrante, desmascarar o rufião da escola ou tornar a família invisível?

Peter Fortune é um rapaz de dez anos que pensa nestas coisas e vive algures entre a fantasia e a realidade. Mas os adultos não o compreendem nem imaginam as coisas fantásticas que lhe passam pela cabeça e, por isso, os seus sonhos só lhe trazem problemas.
Contando estas histórias admiráveis, Peter abre finalmente as portas do seu mundo secreto e fascinante. E convida-nos a entrar nele…
O Sonhador é a primeira obra de Ian McEwan no domínio da literatura juvenil, mas agradará igualmente a jovens e adultos. As histórias extraordinárias que compõem o livro celebram a imaginação humana, e as ilustrações de Anthony Browne, artista várias vezes premiado, permanecerão também na memória dos leitores muito depois de terminada a leitura.

Ian McEwan, O sonhador. Lisboa: Gradiva, 2007. Data da primeira publicação: 1994

Leitura Partilhada – Fome

Paul Auster, num ensaio cujo título (“A Arte da Fome”) remete para um conto de Franz Kafka (“O Artista da Fome”), destaca três ideias essenciais acerca do romance Fome (título original ‘Snut’), de Knut Hamsun: é uma obra que não obedece aos requisitos do romance tradicional, na medida em que os acontecimentos têm lugar no mundo subjectivo do narrador; o narrador é, à semelhança da personagem central de Crime e Castigo, um ‘mostro de arrogância intelectual’; apesar de não existir no romance uma referência explícita ao problema da escrita e da criação literária, ele tem subjacente uma concepção de arte.
Sobre ao primeiro ponto sublinhado por Auster, o romance exibe de facto a exploração, que Joyce elevaria a um outro nível, dos meandros da consciência, destacando-se os momentos em que o narrador reflecte, em monólogos vertiginosos que a fome suscita, sobre os limites da lucidez e da demência. Com efeito, a descrição do processo de escrita torna impossível ao leitor garantir que a loucura está ausente dos actos do escritor faminto, que deseja escrever no limite, i.e., quando a fome ameaça vencer o corpo (como Auster também nota, a noção de arte que está implícita nesta atitude é a de que a arte que não se distingue da vida, implicando um comprometimento real). E o mais curioso é o facto de o narrador nada fazer para impedir a aproximação daquele limite; a sua inteligência parece sucumbir a imperativos que relevam de uma moralidade muito distorcida, cheia de contradições.

É igualmente justa a observação de Auster sobre a arrogância do narrador de Fome, a lembrar a megalomania de um Raskolnikov. A arrogância manifesta-se sobretudo em gestos estúpidos, mediante os quais o narrador mente sobre a sua situação. É aliás notável a forma como Hamsun consegue escrever como se evitasse suscitar qualquer sentimento de compaixão. Do mesmo modo, trata o tema da fome sem recorrer a uma contextualização política, permitindo assim que o indivíduo se eleve acima da história.

Knut Hamsun, Fome. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2008.  Data da primeira publicação: 1890.