“As conversas morais não servem para nada. É preciso movimento, a agitação estica a inteligência, como no caso dos relógios Breguet, que têm corda própria.”
Júlio Verne em, um padre em 1839
“As conversas morais não servem para nada. É preciso movimento, a agitação estica a inteligência, como no caso dos relógios Breguet, que têm corda própria.”
Júlio Verne em, um padre em 1839
Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.

Um duende das estatísticas pintou esta imagem abstracta, com base nos seus dados.
Um navio de carga médio pode transportar cerca de 4.500 contentores. Este blog foi visitado 18,000 vezes em 2010. Se cada visita fosse um contentor, o seu blog enchia cerca de 4 navios.
Em 2010, escreveu 789 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 1714 artigos. Fez upload de 277 imagens, ocupando um total de 29mb. Isso equivale a cerca de 5 imagens por semana.
The busiest day of the year was 24 de Novembro with 186 views. The most popular post that day was Genocídio cambojano….
Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram google.com.br, pt.wordpress.com, google.pt, obama-scandal-exposed.co.cc e alphainventions.com
Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por gelo, astecas, terçolho, palavras e escaravelhos
Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.
Genocídio cambojano… Abril, 2009
Surgiram as primeiras aldeias… Janeiro, 2009
2 comentários
Como se fazia gelo antes dos sistemas de refrigeração? Fevereiro, 2009
1 comentário
As maravilhas da Criação de Deus Janeiro, 2010
O sonho de Malinche Fevereiro, 2010
Fonte: WordPress.com
Debruçado na janela do quarto, olhava, estupefacto com o que lhe era dado ver.
Tinha estado a orar intensamente, pedindo a Deus que lhe desse compreensão para tantas coisas que aconteciam no mundo, e que ele não conseguia perceber.
Eram cataclismos, violências, guerras, ódios, crimes, enfim um nunca parar de coisas horrendas, pelas quais ele como tantos outros, perguntava amargurado:
- Meu Deus porquê? Porque permites tais coisas? Porque as deixas acontecer?
Deus respondeu-lhe então, numa voz muito audível ao seu coração, perguntando-lhe:
- Acreditas que eu fui o teu criador e o criador do mundo? E se acreditas nisso, acreditas que te criei em liberdade para que tu escolhas o teu caminho e a vida que queres viver?
Humildemente, baixou a cabeça e respondeu:
- Sim meu Deus, acredito!
Foi então que se sentiu transportado para aquela janela, podia chamar-lhe a janela do “ Quarto das Maravilhas”, porque da janela do Quarto podia ver todo o mundo.
Deus disse-lhe suavemente, com a voz repassada de tristeza:
- Fica aqui por uns momentos, tantos quantos queiras, e vai reparando no que se passa no mundo, para que obtenhas respostas ao que me perguntaste.
Deixou-se então ali ficar, e começou a olhar, vendo o que se passava no mundo.
Era tudo tão nítido, tão perto, tão real, que tudo o que via o deixava verdadeiramente estupefacto, envergonhado, esmagado de tristeza.
Para todos os lados da terra para onde olhasse via homens a testarem armas, a prepararem-se para a guerra, a provocarem ódios e inimizades, e seguidamente a matarem-se “metodicamente” em batalhas que a nada levavam.
Via a homens a odiarem-se, a prepararem vinganças, a ofenderem-se, ferirem-se, a matarem-se, pelos motivos mais fúteis.
Via homens a exercerem violências inauditas sobre mulheres, sobre crianças, os mais fortes a dominarem os mais fracos.
Via gente cheia de tudo, gente a quem nada faltava e tudo sobrava, e mesmo ao lado gente faminta, nua, gente sem esperança.
Reparou em tantos homens e tantas mulheres, envolvidas em orgias de prazer mundano, depois reflectidas em profundas depressões.
Percebeu envergonhado na imensidade de grávidas que matavam os seus filhos no seu próprio ventre.
Via por todo o lado os homens de costas voltadas, os miseráveis pelo chão e ninguém se incomodar com eles.
Viu ainda tanta gente que andava pelo mundo á espera de uma palavra, de um sorriso, de um conforto, mas que afinal eram “transparentes”, aos olhos daqueles que por eles passavam.
Percebeu também, no meio de todo este horror, algumas ilhas de bondade, de uns poucos, no meio de tantos, que se preocupavam com tudo e queriam o bem de todos.
Não quis ver mais, porque a visão de tudo era insuportável aos seus olhos, ao seu coração, até porque sentia que também fazia parte de tudo aquilo.
Deus olhou para ele, com aqueles olhos imensos de amor eterno e perguntou-lhe:
- Não são todos criaturas minhas? Em alguma coisa os distingui entre os que fazem o bem e os que fazem o mal? Não são todos livres de fazerem a sua própria vontade?
Numa voz sumida e envergonhada apenas respondeu:
- Sim, Senhor.
Serenamente, Deus disse-lhe:
- Então que queres que Eu faça? Que lhes retire a liberdade? Que os obrigue a fazer a minha vontade? Para que lhes serve então a inteligência e a consciência que lhes dei?
Sem saber o que dizer, apenas abanava a cabeça, sem levantar os olhos para Deus.
Deus continuou:
- Se uns usam a liberdade que lhes dei para fazerem o bem, porque é que os outros não o fazem também?
Que têm feito os homens as este “Planeta Privilegiado!” que lhes dei?
Não vês a destruição da natureza, da beleza da criação?
É vontade minha, por acaso?
Mas ele nada conseguia dizer, porque nada havia que protestar, ou contestar.
Deus disse-lhe então:
- Foi-te dado ver o que os homens fazem da liberdade que lhes dei. Foi-te dado perceber que uns a utilizam para o bem e outros para o mal.
Abre o meu Livro e perceberás que desde sempre peço ao homem para fazer a minha vontade, pois só assim encontrará a felicidade.
Até dei ao homem o Meu próprio Filho, para que lhe revelasse a minha vontade, mas torturaram-no e mataram-no!
Ressuscitou ao terceiro dia e deu provas da Sua Ressurreição e mesmo assim não acreditaram, não acreditam.
Ao longo dos tempos, e hoje ainda, sempre houve homens e mulheres testemunhas do bem e do amor, que viveram segundo a minha vontade, e também esses desprezaram e ainda desprezam, alguns até mataram e ainda matam.
Não sei castigar, apenas sei amar!
Que queres tu que Eu faça?
Humildemente, de cabeça baixa, disse:
- Que tenhas compaixão, Senhor!
Que continues a amar-nos com o Teu eterno amor!
Que nos perdoes quando Te perguntamos porque acontece isto ou aquilo, sabendo nós que a culpa é apenas nossa, é apenas da forma como usamos a liberdade que Tu mesmo nos deste.
E envia, meu Deus, mais homens e mulheres que levem a Tua Palavra, que falem da Tua vontade e que dêem testemunho a todas as pessoas, da alegria e da felicidade em absorver conhecimento exato de Ti e de filho que envias-te; Jesus.
Deus abraçou-o então, e disse:
- Lembras-te o que Jesus ensinou sobre o Reino de Deus, e o que esse Reino fará no “Planeta Privilegiado”?
Jesus ensinou que o Reino de Deus eliminará a maldade por remover todos os que estão decididos a praticá-la. Isso significará que por meio desse Reino, um governo real no céu, em breve acabará com toda a maldade e transformará a Terra num paraíso. Deus é amor!

Abriu os olhos, olhou em redor, e calmamente com uma grande paz no seu coração, deu graças a Deus.
- Entre a raposa e o lobo, qual é o mais forte? – já me perguntaram. Mais forte, mais forte é o lobo, mas mais esperta é a raposa.
- E o que vale mais: a esperteza ou a força? – voltaram a perguntar.
Neste ponto, respondo com a história que vão ver e ouvir.
Andava uma raposa à procura de sítio onde fazer uma casa.
Achou um terreno ao seu gosto, limpou-o das ervas e foi-se embora.
O lobo, que também andava à cata de terreno onde fazer uma casa, passou por ali, viu a clareira limpa de ervas e juntou madeira para levantar moradia. Depois, foi-se embora.
A raposa, quando voltou e viu a madeira cortada, começou a erguer as paredes.
Depois, cansou-se e foi à vida.
No dia seguinte, o lobo, ao ver as paredes da casa levantadas, pregou-lhe o telhado e fez-lhe a mobília.
Quando, por sua vez, veio a raposa e viu a casa pronta, meteu-se lá dentro.
– Alto lá. Esta casa é minha – disse o lobo, aparecendo.
- Qual quê? Minha é que ela é – replicou a raposa.
Mas, como não estavam para armar zaragata, resolveram lá viver os dois. No entanto, quem menos se resignava com a companhia era o lobo, que, vai não vai, se punha a dizer, em voz de ameaça:
- Se eu quisesse a casa era só minha… Sim, se eu quisesse.
A raposa, que não gostava destes modos, mas não podia competir com a força do lobo, resolveu o caso assim:
Um dia, que andava no mato, encontrou um lobo morto, talvez fugido dos caçadores. A muito custo, arrastou-o para casa.
- Que aconteceu a esse desgraçado? – quis saber o lobo.
- Matei-o eu – respondeu a raposa.
- A senhora raposa? E como?
- Dizendo umas palavras mágicas para arrumar com os lobos, umas palavras mágicas, que me ensinou a minha avó. Quer saber? Começam assim “Chiri…”
- Cale-se, cale-se! Não diga mais – atalhou o lobo.
- Não quer saber?
É assim “Chiribi…”
- Cale-se que me desgraça – gritou o lobo, fugindo a sete pés.
E nunca mais apareceu lá em casa.
Afinal o que vale mais: a força ou a esperteza?
António Torrado
Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, eu fazia imensas perguntas:
Douglas Wood Grandad’s Prayers of the Earth Paris, Gründ, 2000 (Tradução e adaptação)
Leitura partilhada!
“Para poetas, a pérola é uma lágrima do mar; para orientais, é uma gota de orvalho solidificada; para as damas, é uma jóia de forma oblonga, de brilho hialino, de matéria nacarada, que trazem no dedo, ao pescoço ou nas orelhas; para o químico, é uma combinação de fosfato e de carboneto de cal com o seu tanto ou quanto de gelatina; e, enfim, para os naturalistas, é uma simples secreção doentia do órgão que produz o nácar em certos bivalves.”
Júlio Verne
Se nos vissem sentados na nossa mesa de cozinha, feita à mão e toda arranhada, saberiam logo que não somos ricos. Mas o meu pai está a tentar fazer-nos ver que somos. Será que não vê os meus sapatos gastos? Ou que o meu irmãozinho tem remendos nas calças que leva para a escola? E como explicará ele aquela carrinha a desfazer-se, estacionada à nossa porta? – Não consegues enganar-me – digo-lhe. – Somos pobres. Será que os ricos se sentariam a uma mesa como esta? A minha mãe, como que acariciando a mesa, diz: – Bem, nós somos ricos e sentamo-nos aqui todos os dias. Às vezes, penso que sou a única pessoa sensata na família. Diga-se de passagem que os meus pais fizeram esta mesa com madeira que outras pessoas deitaram fora. Até festejaram quando a terminaram. Não me interpretem mal: eu gosto desta mesa. Só digo que se vê logo que não veio de uma loja de mobílias. Não tem ar de ser uma mesa à qual os ricos se sentariam. Mas a minha mãe pensa que, se todos os governantes do mundo se sentassem em redor de uma amigável mesa de madeira na cozinha de alguém, resolveriam os seus diferendos em metade do tempo. E o meu pai diz que não fazia mal se houvesse um lindo prato azul com muitos bolinhos empilhados, que todos pudessem tirar, mesmo sem ter de pedir. Hoje, porém, trata-se da nossa cozinha, da nossa discussão, da nossa reunião familiar, dos nossos bolinhos de gengibre com especiarias, empilhados no melhor prato de flores azuis da minha mãe, colocado exactamente no centro da mesa. Fui eu que convoquei a reunião, cujo tema é dinheiro; o meu ponto de vista é que não temos dinheiro que chegue. Digo aos meus pais que devem ambos arranjar empregos melhores, para podermos comprar muitas coisas novas e boas. Digo-lhes que faço má figura na escola diante dos outros. – Não gosto de ter de falar disto, mas era bom que fossem ambos mais ambiciosos. Ficam surpreendidos. Vê-se bem que nunca pensam nas coisas de que necessitamos. Devo dizer desde já que os meus pais têm umas ideias estranhas acerca do trabalho. Pensam que os únicos empregos que interessam são empregos ao ar livre. Querem ter rochedos, desfiladeiros, desertos ou montanhas em redor deles, onde quer que estejam a trabalhar. Até querem ver bem o céu. Trabalham sempre juntos e a sua ocupação favorita é procurar ouro. Enfiam-nos naquela carripana e lá vamos nós em direcção às montanhas rochosas e desertas ou em direcção a alguma ravina estreita, onde todas as estradas se assemelham a trilhos de coiotes. Adoram caminhar pelas amplas margens de rios agora secos, onde se podem encontrar pequenos salpicos de ouro. Costumavam dizer-nos que a carrinha sabia exactamente que tipos de estrada bater, e que os coiotes lhes indicavam onde procurar ouro, mas eu nunca acreditei neles. Depois de passarem lá um mês ou dois, traziam sempre um pouco de minério para vender, mas vê-se bem que nunca enriqueceram. Pelo que me é dado ver, tratava-se apenas de um pretexto para acampar de novo num lugar selvagem e belo. Não se importam de plantar campos de milho doce ou de alfalfa. Gostam de apanhar pimentão-de-cheiro, abóbora e tomate. Conseguem construir vedações fortes ou domar potros selvagens. Mas dizem que não aguentam ficar engaiolados em casa. Por isso, o meu pai pergunta: – Quantas pessoas há que sejam tão afortunadas como nós? Mas como fui eu quem convocou esta reunião, respondo: – Aposto que fariam mais dinheiro se trabalhassem num escritório na cidade. – Lembra-te da nossa regra número um – insiste o meu pai. – Temos de poder ver o céu. – Podiam vê-lo através de uma janela – sugiro. Mas eles nem querem ouvir falar disso. Já percebem porque digo que sou o único membro sensato da família? Finalmente, a minha mãe diz: – Está bem, Filha da Montanha. Vamos explicar-te como fazemos contas. Hoje, vais ser a nossa contabilista. Distribui um lápis e uma folha de papel amarelo por cada um de nós, o meu irmão incluído, embora ele só finja que escreve enquanto nós escrevemos, ou desenhe pessoas a dançar no céu. Já agora, o meu nome não é Filha da Montanha. Chamam-me assim porque nasci numa cabana na encosta de uma montanha, no Arizona, num Verão em que os meus pais tinham ido em busca de ouro. Dizem que era um lugar mágico, a mais bela montanha que alguma vez escalaram. Talvez fosse, mas sabemos bem o quanto eles gostam de exagerar. Como queriam que a primeira coisa que eu visse fosse aquela encosta, quando tinha apenas oito minutos de vida levaram-me a ver o nascer-do-sol. A verdade é que ainda gosto muito do nascer-do-sol. Quanto ao meu irmão, chamam-lhe Filho do Oceano. Como eu tinha tido a melhor montanha como primeira paisagem da minha vida, acharam que deviam encontrar o oceano mais belo para quando ele nascesse. Penso que percorreram o México todo para encontrar um lugar onde o oceano e a selva se encontrassem. Queriam que o céu estrelado fosse azul-púrpura e que as ondas do mar fossem da cor verde que eles preferem. Ergueram-no bem alto, para que aquelas ondas fossem a primeira paisagem da sua vida. Havemos de voltar um dia àquele oceano verde e à minha montanha alta. Por ora (embora os meus pais digam que são ricos), não há dinheiro para irmos a lado algum. Por isso, não admira que eu tenha tido de convocar esta reunião. Acreditam que o meu pai me olha bem nos olhos e me diz: – Mas, Filha da Montanha, eu estava persuadido de que sabias o quanto somos ricos. Respondo-lhe: – Esta conversa só vai resultar se admitirmos que somos pobres. O meu pai continua: – Vou provar-te agora mesmo o que disse. Façamos uma lista do dinheiro que ganhamos por ano. – Quanto é? – pergunto. – Preciso de anotar. – Calma aí – adverte o meu pai. – Temos de pensar em montes de coisas antes de somarmos tudo. – Que coisas? A minha mãe contribui: – Sabes que não recebemos o nosso salário apenas em papel-moeda. Temos um plano especial que nos permite ser pagos em pôres-do-sol, em tempo para escalar desfiladeiros e procurar ninhos de águia. Não desarmo: – Não podem dar-me uma quantia só para que eu possa anotar? Começamos com vinte mil dólares. É quanto o meu pai diz que vale poder trabalhar ao ar livre, ver o sol durante todo o dia, sentir o vento e cheirar a chuva, uma hora antes de ela cair realmente. Diz que é quanto vale estar num sítio onde pode cantar alto quando lhe apetece, sem incomodar ninguém. Mal escrevo vinte mil,a minha mãe acrescenta: – É melhor escreveres trinta mil, porque poder ouvir coiotes a uivar nas colinas vale, pelo menos, mais dez mil dólares. Escrevo trinta mil. A mãe lembra-se de que também gostam de viagens longas e de montanhas distantes que mudam de cor dez vezes ao dia. – Para mim, isso vale mais cinco mil dólares. O que não me surpreende, já que a minha mãe afirma ser uma especialista em sombras de montanha no deserto. Diz que consegue saber as horas pela forma como as cores das sombras variam do nascer ao pôr-do-sol. Apago o que escrevi antes e escrevo trinta e cinco mil dólares. O meu pai lembra-se, então, de outra coisa. – Quando um cacto floresce, temos de lá estar porque podemos não voltar a ver aquela cor em mais dia algum da nossa vida. Quanto pensas que vale essa cor? – Cinquenta cêntimos? – pergunta o meu irmão. Decidem-se por acrescentar cinco mil à lista. Já vamos em quarenta mil dólares. Mas eu tinha-me esquecido do quanto o meu pai gosta de imitar os sons dos pássaros. Consegue imitar qualquer um, mas a sua melhor imitação são as pombas de asas brancas, os corvos, os falcões de cauda ruiva e as codornizes. Também é bom a imitar águias e corujas de grandes bicos. Por isso, lá temos nós de acrescentar mais dez mil por termos a sorte de conviver com aves diurnas e nocturnas. Risco a soma que tinha escrito e assento cinquenta mil dólares. – Agora vejamos quanto vale a nossa Filha da Montanha. Decido entrar no jogo e sugiro que valho dez mil dólares, embora o meu irmão tenha começado a rir-se. – Não te subestimes – diz o meu pai. – Lembra-te daquelas listas fabulosas que nos fazes. Tem razão. Faço listas dos melhores livros que cada um de nós leu, e dos que cada um de nós quer ler de novo. Também fiz uma lista de todos os animais que cada um de nós viu e daqueles que mais queremos ver – ao ar livre, não num jardim zoológico. O animal que eu mais gostava de ver é o leão da montanha. Já sonhei com ele quatro vezes e também já lhe vi o rasto. O meu pai escolheu o urso-pardo da América. A minha mãe quer ver um lobo e ouvi-lo uivar. O meu irmão hesita entre um golfinho e uma baleia. Lembro-me de todos porque sou eu que faço as listas. Acabam por achar que valho um milhão de dólares. Protesto, mas anoto a soma. Acabamos por decidir que cada um de nós vale um milhão de dólares. A soma de toda a nossa riqueza totaliza agora quatro milhões e quinhentos mil dólares. Dou-me conta de que quero adicionar cinco mil dólares pelo prazer que me causa vaguear pelo campo, sozinha, livre com um lagarto, sem ter de seguir trilhos, sem ter um plano, apenas pelo prazer de andar ao sabor do vento. A minha família acha que isso vale cinco mil. O que totaliza quatro milhões e cinquenta e cinco mil dólares. Por fim, o meu irmão quer ainda juntar sete dólares por todas as noites em que adormecemos ao ar livre, sob as estrelas. Pensamos que sete dólares são insuficientes e convencemo-lo a arredondar para cinco mil. A minha folha regista agora quatro milhões e sessenta mil dólares – e ainda nem sequer começámos a contar o nosso dinheiro em papel-moeda. Para ser franca, esse tipo de riqueza já não conta muito neste momento. Sugiro que nem faça parte da nossa lista de riquezas. E, assim, a reunião chega ao fim. A família foi até lá fora ver o novo quarto de lua. Mas eu fiquei sentada à nossa querida mesa feita à mão, sobre a qual o prato de flores azuis da minha mãe conserva ainda um bolinho, e escrevo este livro sobre nós. Acaricio a mesa e fico contente por a termos. Acho que o título deste livro vai ser A Mesa dos Ricos.
Byrd Baylor The Table Where Rich People Sit New York, Aladdin Paperbacks, 1998